sábado, 30 de maio de 2026

Plano de Leituras 2026 (2º semestre)



  • 16 de Julho: "A Missão" de Ferreira de Castro
  • 17 de Setembro: "Jacques, o Fatalista" de Denis Diderot
  • 15 de Outubro: "Manhã e Noite" de Jon Fosse
  • 19 de Novembro: "Como Animais" de Violaine Bérot
  • 17 de Dezembro: "Poesia Grega - De Hesíodo a Teócrito (edição bilingue grego e português)" com tradução, notas e comentários de Frederico Lourenço

sexta-feira, 22 de maio de 2026

18 de Junho, pelas 19h00

 SOBRE "AS PEQUENAS MEMÓRIAS"

"As Pequenas Memórias é um livro de recordações que abrange o período entre os quatro e os quinze anos da vida de José Saramago: «Queria que os leitores soubessem de onde saiu o homem que sou».

Caligrafia da capa por Gonçalo M. Tavares

quinta-feira, 21 de maio de 2026

"Um cego" de Jorge Luis Borges

 "UM CEGO

Não sei qual é a face que me fita
Quando observo a face de algum espelho;
No seu reflexo espreita-me esse velho
Com ira muda, fatigada, aflita.
Lento na sombra, com as mãos exploro
Meus invisíveis traços. O mais belo
Fulgor me atinge. Vi o teu cabelo
Que é já de cinza ou é ainda de ouro.
Repito que perdi unicamente 
A superfície sempre vã das coisas.
O consolo é de Milton e é valente,
Mas eu penso nas letras e nas rosas.
Penso que se pudesse ver a cara
Saberia quem sou na tarde rara."


Jorge Luis Borges em "Poesia Completa"
Do livro "A Rosa Profunda" (1975)
Quetzal Editores
1ª edição, Outubro de 2022
Página 415

terça-feira, 12 de maio de 2026

"Rua com armazém róseo" de Jorge Luis Borges

 
"RUA COM ARMAZÉM RÓSEO

Já se entregam os olhos à noite em cada embocadura
e é como uma seca farejando chuva.
Já todos os caminhos estão perto,
e até o caminho do milagre.
O vento traz a aurora entorpecida.
A aurora é o nosso medo de fazer coisas diferentes e cai sobre nós.
Por toda a santa noite caminhei
e a sua inquietação deixa-me agora
nesta rua que é qualquer uma.
Aqui de novo a segurança da planície
no horizonte
e o terreno baldio desfeito em joios e arames
e o armazém tão claro 
como a lua nova de ontem à tarde.
É familiar como uma lembrança, a esquina
com estes grandes socos e a promessa de um pátio.
Que belo é testemunhar-te, rua de sempre, já que viram tão
pouco os meus dias!
A luz já raia o ar.
Os meus anos percorreram os caminhos da terra e da água
e só te sinto a ti, rua dura e rosada.
Penso se as tuas paredes conceberam a aurora,
armazém que no extremo da noite és tão claro.
Penso e faz-se-me voz perante as casas
a confissão da minha pobreza:
não pude olhar os rios nem o mar nem a serra,
mas foi minha íntima a luz de Buenos Aires
e forjo os meus versos de vida e de morte
com essa luz de rua.
Rua grande e sofrida,
és a única música da minha vida."


Jorge Luis Borges em "Poesia Completa"
Do livro "Lua Defronte" (1925)
Quetzal Editores
1ª edição, Outubro de 2022
Páginas 55 e 56