Já se entregam os olhos à noite em cada embocadura
e é como uma seca farejando chuva.
Já todos os caminhos estão perto,
e até o caminho do milagre.
O vento traz a aurora entorpecida.
A aurora é o nosso medo de fazer coisas diferentes e cai sobre nós.
Por toda a santa noite caminhei
e a sua inquietação deixa-me agora
nesta rua que é qualquer uma.
Aqui de novo a segurança da planície
no horizonte
e o terreno baldio desfeito em joios e arames
e o armazém tão claro
como a lua nova de ontem à tarde.
É familiar como uma lembrança, a esquina
com estes grandes socos e a promessa de um pátio.
Que belo é testemunhar-te, rua de sempre, já que viram tão
pouco os meus dias!
A luz já raia o ar.
Os meus anos percorreram os caminhos da terra e da água
e só te sinto a ti, rua dura e rosada.
Penso se as tuas paredes conceberam a aurora,
armazém que no extremo da noite és tão claro.
Penso e faz-se-me voz perante as casas
a confissão da minha pobreza:
não pude olhar os rios nem o mar nem a serra,
mas foi minha íntima a luz de Buenos Aires
e forjo os meus versos de vida e de morte
com essa luz de rua.
Rua grande e sofrida,
és a única música da minha vida."
Jorge Luis Borges em "Poesia Completa"
Do livro "Lua Defronte" (1925)
Quetzal Editores
1ª edição, Outubro de 2022
Páginas 55 e 56
