"COMO ANIMAIS (2021), novela breve e contundente, emerge dos depoimentos dos habitantes de uma aldeia isolada nos Pirenéus, quando uma criança desconhecida é avistada numa gruta e a suspeição se abate sobre um deles, reavivando antigas lendas e mistérios. Desta polifonia se tece um conto da montanha, forte e ambicioso, sobre o direito à diferença, que revisita o tema da criança selvagem. Um livro que se lê de um só fôlego e nos deixa uma duradoura pergunta: quando os que vivem pacificamente à margem da sociedade esbarram na incompreensão de um mundo cada vez mais desumano e alheado da natureza, quem são afinal os animais?"
Leituras na Quinta
Blogue da Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal de Cascais
sexta-feira, 30 de outubro de 2026
domingo, 27 de setembro de 2026
15 de Outubro, pelas 19h00
Um menino está prestes a nascer: chamar-se-á Johannes como o avô e será pescador como o pai. Uma vida boa, é esse o desejo de quem o traz ao mundo, embora este seja um mundo duro, ruim e cruel. Um homem, velho e sozinho, morre: chama-se Johannes e foi pescador. É o seu melhor amigo que o vem buscar rumo a esse destino onde não há corpos nem palavras, apenas tudo aquilo que se ama. Antes do regresso definitivo ao nada, Johannes revisita o museu da sua vida, longa, simples e quotidiana, confrontando-se paulatinamente com a morte num constante entrelaçamento de real e alucinação, passado e presente.
Manhã e Noite é um romance sobre o maravilhoso sonho que é viver e a aceitação do ciclo natural das coisas. Numa linguagem poética e elíptica, inovadora e despojada, Jon Fosse condensa toda uma existência em dois momentos-chave, urdindo uma reflexão encantatória sobre o significado da vida, Deus e a morte.
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
17 de Setembro, pelas 19h00
"Em Jacques, o Fatalista, Diderot fala, conversa, dança com as palavras, traça figuras de uma coreografia arrebatadora. Diderot não nos deixa repousar um minuto: as personagens saltam, desaparecem, morrem, amam, enganam-se, agridem, ressuscitam, e tudo se processa numa agilidade e desenvoltura absolutamente surpreendentes [...] O essencial não está, portanto, na estabilização, mas num valor precisamente oposto: na velocidade com que o jogo continua a ser jogado."
- Eduardo Prado Coelho
domingo, 21 de junho de 2026
16 de Julho, pelas 19h00
"Obra de maturidade narrativa e dramática, A Missão, de
Ferreira de Castro, interroga-se e interroga-nos sobre o homem,
a sua vivência religiosa e laica em momentos de perigo, e
sobretudo, sobre o desfasamento ético e moral entre essas opções
de sobrevivência vital e os valores abraçados como opção de
vida. É o drama humano na sua face bifronte, assustadora a partir
do momento em que o instinto se sobrepõe a todos os ideais."
Podem consultar aqui, o artigo completo de Ivone Bastos Ferreira (páginas 157 a 170), publicado na revista Castriana nº 1- Estudos sobre Ferreira de Castro e a sua Geração
sábado, 30 de maio de 2026
Plano de Leituras 2026 (2º semestre)
- 16 de Julho: "A Missão" de Ferreira de Castro
- 17 de Setembro: "Jacques, o Fatalista" de Denis Diderot
- 15 de Outubro: "Manhã e Noite" de Jon Fosse
- 19 de Novembro: "Como Animais" de Violaine Bérot
- 17 de Dezembro: "Poesia Grega - De Hesíodo a Teócrito (edição bilingue grego e português)" com tradução, notas e comentários de Frederico Lourenço
sexta-feira, 22 de maio de 2026
18 de Junho, pelas 19h00
SOBRE "AS PEQUENAS MEMÓRIAS"
"As Pequenas Memórias é um livro de recordações que abrange o período entre os quatro e os quinze anos da vida de José Saramago: «Queria que os leitores soubessem de onde saiu o homem que sou».
Caligrafia da capa por Gonçalo M. Tavares
quinta-feira, 21 de maio de 2026
"Um cego" de Jorge Luis Borges
Não sei qual é a face que me fita
Quando observo a face de algum espelho;
No seu reflexo espreita-me esse velho
Com ira muda, fatigada, aflita.
Lento na sombra, com as mãos exploro
Meus invisíveis traços. O mais belo
Fulgor me atinge. Vi o teu cabelo
Que é já de cinza ou é ainda de ouro.
Repito que perdi unicamente
A superfície sempre vã das coisas.
O consolo é de Milton e é valente,
Mas eu penso nas letras e nas rosas.
Penso que se pudesse ver a cara
Saberia quem sou na tarde rara."
Jorge Luis Borges em "Poesia Completa"
Do livro "A Rosa Profunda" (1975)
Quetzal Editores
1ª edição, Outubro de 2022
Página 415
terça-feira, 12 de maio de 2026
"Rua com armazém róseo" de Jorge Luis Borges
Já se entregam os olhos à noite em cada embocadura
e é como uma seca farejando chuva.
Já todos os caminhos estão perto,
e até o caminho do milagre.
O vento traz a aurora entorpecida.
A aurora é o nosso medo de fazer coisas diferentes e cai sobre nós.
Por toda a santa noite caminhei
e a sua inquietação deixa-me agora
nesta rua que é qualquer uma.
Aqui de novo a segurança da planície
no horizonte
e o terreno baldio desfeito em joios e arames
e o armazém tão claro
como a lua nova de ontem à tarde.
É familiar como uma lembrança, a esquina
com estes grandes socos e a promessa de um pátio.
Que belo é testemunhar-te, rua de sempre, já que viram tão
pouco os meus dias!
A luz já raia o ar.
Os meus anos percorreram os caminhos da terra e da água
e só te sinto a ti, rua dura e rosada.
Penso se as tuas paredes conceberam a aurora,
armazém que no extremo da noite és tão claro.
Penso e faz-se-me voz perante as casas
a confissão da minha pobreza:
não pude olhar os rios nem o mar nem a serra,
mas foi minha íntima a luz de Buenos Aires
e forjo os meus versos de vida e de morte
com essa luz de rua.
Rua grande e sofrida,
és a única música da minha vida."
Jorge Luis Borges em "Poesia Completa"
Do livro "Lua Defronte" (1925)
Quetzal Editores
1ª edição, Outubro de 2022
Páginas 55 e 56
quinta-feira, 23 de abril de 2026
"O Sul" de Jorge Luis Borges
De um dos teus pátios ter olhado
as antigas estrelas,
e do banco da sombra ter olhado
essas luzes dispersas
que a minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na secreta cisterna,
o cheiro do jasmim, da madressilva,
o silêncio do pássaro a dormir,
o arco do saguão, a humidade
- essas coisas talvez sejam o poema."
Jorge Luis Borges em "Poesia Completa"
Do livro "Fervor de Buenos Aires" (1923)
Quetzal Editores
1ª edição, Outubro de 2022
Página 21
sábado, 18 de abril de 2026
21 de Maio, pelas 19h00
"Publicado em 1975, esta é a derradeira coletânea de contos de Borges. A primeira das histórias aqui reunidas retoma o tema do duplo: os protagonistas de «O outro» são diferentes o suficiente para serem dois e semelhantes o suficiente para serem um. «Ulrica» é a história de um amor fugaz. «O Congresso» descreve uma empresa tão vasta que se confunde com o cosmos e com a soma dos dias. «Undr» e «O espelho e a máscara» são histórias sobre literaturas seculares que consistem numa única palavra, enquanto outras peças imaginam objetos inconcebíveis como um livro com páginas infinitas - um volume imprevisível e ao mesmo tempo monstruoso: o livro de areia, que tomará o tempo e a memória do leitor para sempre."
sexta-feira, 20 de março de 2026
16 de Abril, pelas 19h00
"Neste livro foram reunidas três novelas de Marguerite Yourcenar.
Anna, Soror ... é um escrito de juventude (1925) e o seu tema é uma relação incestuosa entre irmão e irmã na Nápoles do século XVI.
Um Homem Obscuro foi escrito entre 1979 e 1981 e fala-nos da vida e morte de Natanael, um homem da Holanda do século XVII, que lança sobre o mundo um olhar desprevenido.
O protagonista de Uma Bela Manhã (igualmente composto entre 1979 e 1981) é Lázaro, o filho de Natanael, que muito novo se junta a um bando de comediantes shakespearianos, por conhecer de cor as falas das personagens do teatro isabelino."
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
19 de Fevereiro, pelas 19h00
"O que pode acontecer quando a paixão pela roleta se cruza com a paixão pela mulher amada?
É esse conflito que Dostoievski aborda neste romance, memórias de um jovem que faz parte do séquito de um general russo instalado em Roletenburgo, à espera de uma herança que nunca mais chega.
Trata-se de um grupo de personagens ligadas pela cupidez, a ambição, o fracasso, o amor e a memória de faustos passados, vivendo um jogo de luz e sombra em que quase nada é o que parece.
Há um lado biográfico em O Jogador.
Em 1863, quando viajava ao encontro de Paulina Suslova, a grande paixão amorosa da sua vida, que vivia então em Paris, Dostoievski, endividado e alucinado pelo enriquecimento súbito, tentou a sua sorte nas roletas de Wiesbaden. Ganhou, perdeu, recuperou e retomou o caminho para Paris.
Mas na viagem que fez com Paulina procurou de novo as intensidades da roleta em Baden-Baden onde perdeu tudo o que tinha, incluindo o seu relógio e o anel de Paulina.
Inventou um sistema para ganhar que falhou em Bad Homburg, obrigando-o a voltar sozinho a S. Petersburgo.
No ano seguinte, Dostoievski ditara em vinte e seis dias o seu romance O Jogador a uma jovem estenógrafa, Ana Grigorievna, que viria a ser a sua segunda esposa."
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
22 de Janeiro, pelas 19h00
«Não sei o nome daquele a quem foram escritas, nem o de quem as traduziu, mas parece-me que, publicando-as, não devo incorrer no seu desagrado.» Assim era o aviso ao leitor incauto que encontrava, pela primeira vez, este livro escrito em língua francesa e publicado em 1669. A história aí contada, em cinco cartas anónimas, seria a de uma freira portuguesa enclausurada num convento de Beja, que se apaixonara por um oficial francês de passagem. Depois da partida do militar, a mulher escreve-lhe num misto de amor e ódio, reivindicando a sua paixão. Redigido numa prosa magistral e exuberante, cedo suscitou leituras em todo o mundo, especulações, novas cartas aparentemente descobertas, traduções, respostas do seu destinatário, edições pirata, um fascínio que ainda hoje encerra um mistério: que ardente paixão foi esta, real ou literária?"
sábado, 22 de novembro de 2025
18 de Dezembro, pelas 19h00
«A Sombra do Mar» é o novo livro de poesia de Armando Silva Carvalho, premiado com o Grande Prémio DST Literatura 2014 pelo seu livro anterior, «De Amore». De Eugénio a Pessoa, das perturbadoras imagens da actualidade vistas na televisão ao desencanto da velhice, do bosão de Higgs ao prazer da vida. Um livro admirável de um dos grandes poetas do nosso tempo."
«A idade traz-me as metáforas do perigo
e também as suas regras
no desastre.
[...]»
Plano de Leituras 2026 (1º semestre)
- 15 de Janeiro: "Cartas Portuguesas" atribuídas a Soror Mariana Alcoforado
- 19 de Fevereiro: "O Jogador" de Fiódor Dostoiévski
- 19 de Março: "A Missão" de Ferreira de Castro
- 16 de Abril: "Como a Água que Corre" de Marguerite Yourcenar
- 21 de Maio: "O Livro de Areia" de Jorge Luís Borges
- 18 de Junho: "As Pequenas Memórias" de José Saramago
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