quinta-feira, 21 de maio de 2026

"Um cego" de Jorge Luis Borges

 "UM CEGO

Não sei qual é a face que me fita
Quando observo a face de algum espelho;
No seu reflexo espreita-me esse velho
Com ira muda, fatigada, aflita.
Lento na sombra, com as mãos exploro
Meus invisíveis traços. O mais belo
Fulgor me atinge. Vi o teu cabelo
Que é já de cinza ou é ainda de ouro.
Repito que perdi unicamente 
A superfície sempre vã das coisas.
O consolo é de Milton e é valente,
Mas eu penso nas letras e nas rosas.
Penso que se pudesse ver a cara
Saberia quem sou na tarde rara."


Jorge Luis Borges em "Poesia Completa"
Do livro "A Rosa Profunda" (1975)
Quetzal Editores
1ª edição, Outubro de 2022
Página 415

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